Precisamos falar sobre Pablo

(Foto: Rubens Chiri/Saopaulofc.net)

Por Rafael Oliveira (@raffa_tricolor)

Você, são paulino como eu tem dormido mal, acordado mal. Um looping eterno de mal humor. Motivos não faltam. Desclassificação na Libertadores, desclassificação na Copa do Brasil, a um ponto do Z4. E ainda tem o Daniel Alves que fez o que fez com o clube, com a torcida, com seus companheiros no São Paulo.

Nossa única alegria nos últimos dias tem sido lembrar que daqui pra frente é só tocar no Calleri que é gol.

E eu te entendo, também quero crer nisso, porque Deus lá no céu sabe a alegria que é ter um centro avante que, bem, marque gols.

Mas, eu sou professor de Filosofia, então sempre há um “mas”.

Mas, embora seja do Calleri que todo tricolor paulista queira falar pra afastar essa tristeza sem fim, não é dele que devemos falar. Há uma enorme diferença entre querer de dever.

Eu quero praia e água de coco de segunda a sexta. Aos fins de semana, churrasco e cerveja. Mas eu devo trabalhar de segunda a sexta. E se eu me empanturrar com álcool e gordura vou arrumar outro problema para o coração, além de ser são paulino.

Então devemos falar sobre Pablo, porque ele é o nosso espelho.

Como assim, você deve estar se pensando. Então eu explico.

Pablo não é craque, disso não há dúvidas. Em 2015 passou pelo Cerezo Osaka, jogando pela J-League. Esteve em 40 jogos e marcou 8 gols e deu duas assistências.

Antes disso, passou seis meses emprestado ao Real Madrid B, jogando em 4 ocasiões e não balançou as redes em nenhuma oportunidade. Também não deu nenhuma assistência. No Atlético Paranaense rendeu em 170 jogos, 34 gols e 9 assistências.

Então ele chega ao São Paulo por R$ 26 milhões de reais (!!!), a contratação mais cara de nossa história, superando Ganso e Pratto.

Com a saída de Diego Souza para o Botafogo, a posição de centro avante estava vaga e, então, chega o jogador mais caro da nossa história para vestir a 9 que um dia foi de Luis Fabiano e Serginho Chulapa.

Como toda tragédia possui requintes de sadismo, Pablo chega em um São Paulo há quase dez anos sem levantar uma taça.

A expectativa da torcida sobe nas alturas, e isso entende-se: ele chega como promessa para o fim do jejum.

Porque a gente quer o tetra da Libertadores, do Mundial e dar outro sacode no nosso freguês, o Real Madrid.

Para nós, Pablo chegou como esse cara. Ele foi vendido para a torcida como o camisa nove mais caro da história e assim, do camisa nove a gente espera gol. Do camisa nove mais caro, muitos gols.

Só o Tite aceita Gabriel Jesus depois de uma copa inteira sem balançar as redes. Nós somos menos tolerantes nesse sentido. Torcedor quer título e para levantar taça precisa de gol. Muitos gols, se o seu goleiro é o Volpi.

E quem faz gol é o camisa nove, poxa vida.

Mas Pablo não é esse cara, nunca foi, seu histórico mostra. E está tudo certo, ninguém tem a obrigação de ser o salvador da pátria. Mas a torcida, bem… repito, a torcida tricolor está sem paciência faz tempo, e o título do Paulistão não melhorou em nada isso porque convenhamos, é realmente pouco para nossa história. Devemos querer mais, bem mais.

O modo como tratamos Pablo, as cobranças excessivas, o ódio reprovável que parte da torcida lhe dirige, nos mostra em que estado de ânimos nós temos vivido nos últimos anos. Nosso problema não é com Pablo.

Nosso problema é com o São Paulo. Pablo é o parapeito que volta e meia recebe a onda.

A cada gol que ele perde – como foi o caso do gol perdido contra o Palmeiras em nossa desclassificação na Libertadores – reforça em nós o sentimento de “mais um ano na seca”. Pablo erra e automaticamente já pensamos na gozação que vamos aturar no outro dia, quando chegarmos no trabalho. E assim a indignação aumenta, a cobrança sobe o tom e machuca quem recebe. Machuca tanto que, no jogo seguinte a desclassificação, Pablo marca e sai triste no intervalo.

Caramba, qual atacante sai cabisbaixo de campo depois de ter marcado?

O atacante que se importa, e Pablo é esse cara. O que lhe falta de posicionamento e pivô, sobra em carisma e coração. Ele não é como Dani Alves que nos abandona para fazer batuque com a garotada em Tóquio perseguindo o novo sonho da semana, que agora parece ser jogar no Flamengo.

E por que nossa torcida bate tanto em Pablo? Porque ele foi vendido como o salvador da pátria que nunca foi e nossa torcida tem buscado um rosto culpado para os problemas que não estão em campo, estão há muito tempo nos bastidores do clube, e só tem coragem de mostrar a cara quando as coisas dão certo.

Quero estar errado, mas consigo imaginar o Calleri em campo, o São Paulo tomando sufoco, perdendo, mal das pernas e, assim como aconteceu com o Benitez, de herói, Calleri passa a vilão. De salvador da pátria vira, rapidinho em três ou quatro jogos, perninha.

De repente surgem nos perfis verificados, nos “analistas” de futebol a ideia de que o tempo de Calleri já passou, que ele está velho. E o salvador da pátria agora é o Lucas, esse sim quando voltar é que fará o São Paulo voltar a ser campeão. Ai ele volta, o São Paulo é desclassificado e o looping reinicia.

Falta de nossa torcida um pouco mais de envolvimento com o cotidiano do clube, entender melhor porque nosso departamento médico precisou de 60 dias para recuperar Luciano. Porque um jogador como Marquinhos, apenas 18 anos, se lesiona tão rápido entre os titulares. Por qual motivo Volpi não tem um reserva lhe pressionando a ser um goleiro mais confiante. Porque pagamos R$ 26 milhões em um centro avante que não marca gols.

Por quê?

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