Carta Aberta ao Profeta Hernanes

Twitter/Reprodução

Valinhos, 15 de Julho de 2021

Prezado Anderson Hernanes de Carvalho Viana Lima,

“Gratidão”, “idolatria”, “perseverança” e “identidade”. Estas foram as palavras mais recorrentes na tentativa de alguns são-paulinos em te descrever. Primeiramente, gostaria de te adiantar que não sou muito bom com despedidas. Mas farei questão de colocar não somente o meu, mas o sentimento de milhões de torcedores nesta carta, além de que, tenho plena certeza de que não é um adeus, apenas um até logo. 

Esta carta não pode prosseguir de forma diferente a um agradecimento. Então antes que eu me esqueça: Muito obrigado, Hernanes! De quase dispensado em seu último ano como atleta de base do São Paulo Futebol Clube para uma lenda do clube, que sem sombra de dúvidas figura na primeira prateleira de ídolos dessa agremiação repleta de história e conquistas. 

Me lembro bem do começo de sua trajetória por aqui. Após um período de empréstimo muito benéfico para seu desenvolvimento como atleta, em 2007 você voltou ao clube pronto para assumir um papel que é seu por natureza: o de protagonista. Logo na sua primeira temporada assumindo este protagonismo você nos presenteia (ao lado de craques) com mais um título brasileiro. Como se já não bastasse, não se contentou em apenas ser importante para o time, você acabou como o melhor volante do campeonato, conquistando sua primeira bola de prata. Fantástico.

Seu próximo título não demorou muito para chegar, em 2008 nos presenteou com o tri-brasileiro, o seu bi. E adivinha? Mais uma bola de prata como melhor volante do campeonato. Pensa que parou por aí? Nunca. Melhor jogador do campeonato, consolidando ainda mais seu papel e importância para o clube. E como você mesmo diz: campeão é para muitos, bi para poucos, mas TRI só a gente. Obrigado por nos colocar neste patamar.

Eu poderia passar horas aqui listando atuações memoráveis que você teve durante suas passagens por aqui. Foram mais de 300 jogos com este manto, um feito pouquíssimas pessoas. Mas resolvi te contar sobre as duas que mais marcaram minha vida. Em 2009 na Vila Belmiro, com um dos gols mais bonitos de falta que eu já vi em toda minha vida, você empatou o jogo e conduziu a equipe para buscar uma bela virada, vencendo o Peixe por 4×3. Mágico. Falando em virada, como esquecer seu primeiro jogo no retorno em 2017? Perdendo por 3×1 no Engenhão, você entra, muda o jogo e nos presenteia com mais um 4×3. Espetacular, profético. Aliás, você, como bem disse, não fala palavrão pois é o profeta, mas aqui é São Paulo, piii.

E o que falar sobre o ano de 2017? Longe do seu auge físico e técnico, ao ver o clube que você ama em maus lençóis, flertando com o rebaixamento, não poderia ver isso e ficar de braços cruzados. Sabendo das consequências que isso traria ao seu corpo e até mesmo a sua carreira, você, em um dos atos de maior demonstração de amor que já vi a este clube aceita dar o último gás de sua carreira para nos salvar. E você nos salvou. 

Se dedicando como poucos, você reassume seu papel: o grande protagonista. Armando, desarmando, construindo e finalizando, com menos de 6 meses, você termina a temporada com 19 jogos, 9 gols e 3 assistências. E adivinha? Mais uma bola de prata como melhor volante do campeonato, além do prêmio de craque da galera. Você tirou um clube da zona de rebaixamento com riscos reais de queda, e nos fez sonhar com Libertadores. Gênio. Se hoje podemos nos gabar de que “time grande não cai” é estritamente graças a você, ídolo. 

Ainda não contente, você se encarregou de mais uma missão, que como um bom são-paulino te incomodava demais. Você volta para a temporada de 2019 com uma missão: tirar nosso tricolor da fila. Ciente de que, se em 2017 já não se encontrava mais no auge, após o último gás e mais uma temporada na China, você exerceria outra função, mas sem deixar de ser protagonista. Semelhante a Diego Lugano em seu retorno no ano de 2015, você chega para assumir o vestiário e ser um espelho para aqueles que, assim como você, vieram da base.

E adivinha? É lógico que você cumpriu mais uma missão. Afinal, a vida de um jogador é uma sucessiva sucessão de sucessões que se sucedem sucessivamente. Não é? Em 2021, em um penúltimo ato de amor ao São Paulo Futebol Clube, você, nos bastidores, mostrou a todos o que é vestir a camisa tricolor e nos guiou a mais um título paulista após batermos na trave no Brasileirão de 2020. Ufa! Fim de Fila. 

Como um ato final de bravura e amor ao clube, você, insatisfeito por não conseguir render o que queria e recebendo um alto, porém merecido salário, buscou a direção para uma rescisão amigável, abrindo mão de boa parte da quantia que o clube te devia. Você é exemplo como jogador, mas como homem é um exemplo maior ainda. 

Me reservei para falar de você apenas em nosso tricolor, mas você tem uma carreira brilhante. Inter de Milão, Lazio, Juventus, Seleção… enfim, carreira de craque. Novamente, Obrigado por tudo, Anderson Hernanes de Carvalho Viana Lima.  Você é meu ídolo no esporte e na vida. Vá, mas volte em outra função. Nós precisamos de você.

Em nome de toda torcida tricolor,

Murilo Zanardi 

@murilozanardi

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