OPINIÃO: De tanto segurar o time, o torcedor são-paulino está com cãibras.

Torcedores no Morumbi na partida contra o Flamengo. (Foto: Rubens Chiri / saopaulofc.net)

Domingo, 14 de novembro de 2021. Mais de 40 mil pessoas saíram de suas casas a caminho do estádio do Morumbi, muitos retornando pela primeira vez depois de quase 2 anos, para cantar e empurrar o time do coração. Eu inclusa.

De quê adiantou?

Após a goleada, o São Paulo se encontra na décima quinta posição na tabela, apenas dois pontos a frente do Juventude, primeiro time do Z4. Agora, muitos dizem que a torcida não pode desanimar, que é o momento de apoiar o time e continuar lotando o Morumbi.

O torcedor não cansa?

Ah, como cansa. Sai cedo de casa e volta tarde. Torcedor toma sol, chuva, gasta dinheiro, compra camisa, paga Sócio Torcedor, se estressa com o Total Acesso, chega lá, canta, vibra… e vê um time sem esforço, jogadores que não chegam na bola. A sensação que eu tenho é que estou apenas colocando dinheiro no bolso do senhor presidente para que ele invista em piscinas novas para o clube e campeonatos de biribol.

O futebol do São Paulo “Futebol” Clube está abandonado. Pela diretoria e pelos próprios jogadores. Muitos ali já deveriam ter saído há muito tempo. Mandam e desmandam no time, decidem quando técnico fica ou sai, jogam quando querem! Conseguimos perder um dos títulos mais imperdíveis dos últimos anos. Estávamos com a taça em uma mão, mas na outra estávamos com um treinador limitado e um elenco preguiçoso.

Um elenco que racha por qualquer coisa, jogadores que se acham maiores que o clube, que não se importam com a torcida e nem com a instituição. Não têm respeito pela camisa que vestem (há raras exceções como Calleri e Luciano), que caso o time seja rebaixado serão os primeiros a sair, porque também se acharão grandes demais para jogar a série B.

Há grandes chances de, caso sejamos rebaixados, ficarmos numa situação parecida com a do Cruzeiro. A crise financeira pode estourar, já que a diretoria claramente não faz esforço para melhorar a situação, pelo contrário, cria ainda mais dívidas. Também devemos lembrar que, na série B, as cotas de televisão diminuem, e podemos até perder patrocinadores.

Isso tudo vai pesar dentro de campo, onde provavelmente ficaremos com um elenco medíocre (ainda mais que o atual), já que muitos garotos da base seriam vendidos.

Se ficarmos na série A, nada vai mudar. Vamos continuar brigando para não cair, brigando por libertadores para ser eliminados da libertadores, serão mais anos sem títulos.

E o torcedor?

O torcedor vai continuar frequentando o Morumbi, comprando camisa, pagando o Sócio Torcedor. E não vai mudar muita coisa. Temos a triste e inocente ilusão de que tudo isso incentiva e ajuda o time. Será mesmo?

Muitos vão se cansar. Parar de frequentar o Morumbi, cancelar o ST. E estão com toda a razão. A torcida não é obrigada a pagar pelos erros da diretoria e do elenco fraco.

A torcida pediu separação do social e do futebol, mas o presidente está mais preocupado em aprovar a reeleição. Presidente esse que, jurou que sua gestão seria diferente, que mudaria o São Paulo. Parabéns, Júlio Casares. Sua gestão será diferente de todas, pois pode ser nela onde o São Paulo jogará na segunda divisão pela primeira vez na história.

A torcida não merece isso. Mas a gestão o elenco atual talvez até mereçam. Times como Corinthians e Palmeiras se reestruturaram e voltaram a ganhar títulos importantes depois de voltarem à elite.

Quando crianças, aprendemos que cair faz parte da vida. Nos machucamos, mas a cicatriz nos deixa mais fortes. Às vezes achamos que já somos grandes e estamos fortes, mas uma queda dolorida nos lembra que ainda temos muito a crescer, que não somos tão grandes como achávamos que éramos.

O São Paulo acha que ainda é grande. Que Campeonato Paulista é Copa do Mundo. Acha que Rogério Ceni, o maior ídolo da história do clube, é obrigado a segurar essa bomba em seu colo e desarmá-la. Como se não bastasse todo o estrago já feito, essa diretoria ainda tenta manchar a história do nosso maior ídolo.

Coitado do Rogério Ceni. Coitado do Hernan Crespo, que conseguiu nos tirar da fila e fazer os olhos do torcedor brilharem depois de anos.

O problema do São Paulo nunca foi o técnico. Diniz conseguiu ser líder do Brasileirão (apesar de vários vexames) mesmo sendo limitado.

Não adianta trazer o Klopp, se ele vai olhar para o banco de reservas e suas opções forem Vitor Bueno, Pablo, Éder ou algum garoto inexperiente de 20 anos. Se o departamento médico é ineficaz, se a diretoria é pífia e a arbitragem brasileira, amadora.

A situação do São Paulo é triste e parece sem solução. É devastador para o torcedor que percebeu que encher o estádio e cantar bem alto não empurra mais o time.

Não estamos mais em 2017, não temos mais um Hernanes para salvar o dia, e lá dentro de campo, a voz da torcida não faz a menor diferença mais. Domingo, se fossem 70 mil ou 5 mil pessoas no Morumbi, o resultado seria o mesmo.

O torcedor são-paulino se cansou e com toda a razão. Não somos obrigados a segurar essa bomba, e olha que seguramos muito, Mas quando você fica muito tempo segurando algo, dá cãibra.

Estamos com cãibra, com o braço formigando. Alguns nem sentem mais o braço. De tanto tentar levantar o time, de tanto segurar para não cair. Mas é porque a gente percebeu que não faz mais diferença segurar, uma hora vai cair de qualquer jeito (figura e literalmente).

Vale a pena continuar sentindo cãibra para segurar um prédio que já está condenado?

Beatriz Pestana

Beatriz Pestana

23 anos. Estudante de jornalismo. Apaixonada por futebol, é são-paulina fanática desde criança. Ama futebol de base e pretende seguir cobrindo essa área.

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