Daniel Alves, o pacote megalomaníaco que a gestão Leco não conseguiu desembrulhar

Esta sexta-feira (17) foi de derradeiras novidades no caso Daniel Alves. O acordo do São Paulo com o jogador, enfim, foi saiu do forno – e ele, enfim, se despediu do clubes pelas redes sociais. Na prática, entretanto, hoje foi apenas a missa de sétimo dia do atleta no clube. Já com o benéfico distanciamento de uma semana dos fatos, é importante fazer algumas ponderações sobre o SPFC que passam por Daniel Alves.

Aqui, um adendo: ponderações sobre o São Paulo. Elas, apenas, envolvem Daniel Alves de alguma forma – ainda que bastante próximas. E, claro: pelo tamanho de Daniel Alves, tudo ganhou proporções gigantescas. Esse é o primeiro ponto a ser destacado.

Bom de bola, mídia e sorte

Tudo que envolve Daniel Alves, de alguma forma, sempre foi superdimensionado. Ele sempre foi um lateral acima da média, sempre esteve presente em times vencedores. Isso é inegável. Mas não podemos deixar de destacar que ele, também, sabe aproveitar a mídia e o marketing como poucos – e isso é algo muito positivo para ele, que consegue arrebatar a atenção e a simpatia de quem não acompanha futebol tão de perto. Os figurinos extravagantes, as frases polêmicas, a banana comida, a capa da Veja… em alguns momentos, era difícil distinguir se o atleta Daniel Alves levava a reboque a personalidade Daniel Alves.

Também é impossível destacar que ele teve um imenso empurrãozinho do destino. Explico: na Copa das Confederações de 2009, o Brasil sofria com um futebol nada vistoso. Nas semifinais da competição, contra a anfitriã África do Sul, empatava por 0x0 até os 43 do segundo tempo. O Good Crazy marcou um golaço que deu a vaga para a Seleção Canarinho na final. Mais do que isso: a vaga de lateral-direito reserva de Maicon, titular incontestável na época, estava aberta. E o gol de Daniel Alves contou muitos pontos, obviamente, para que ele abocanhasse a convocação. De quebra, veio a antológica narração de Galvão Bueno, em rede nacional:

Foi a bola dele na Copa das Confederações 2009 – vencida pelo Brasil, por sinal. Também na Copa das Confederações 2013, nas Copas do Mundo 2010, 2014 e 2018, nas Copas América 2007, 2011, 2015, 2016, 2019 e 2021. Sempre defendendo a Seleção Brasileira na rede de televisão mais vista do país, elogiado por todos, irreverente. Como não gostar dele?

Megalomania são-paulina

Como não poderia deixar de ser, tudo que envolveu Daniel Alves no São Paulo também foi superdimensionado. Não falo apenas da bagatela de R$ 1,5 milhão mensais totais que ele recebia do clube e da posterior dívida, que vai ser paga como se fosse um carnê das Casas Bahia. Vou entrar nesse assunto posteriormente, por sinal.

Mas é importante relembrar como ele chegou ao SPFC. Com um vídeo emocionante, reafirmando que sempre foi são-paulino, com Morumbi cheio para apresentá-lo e para ver o jogo de estreia dele – vencido graças a um tento dele, por sinal.

Desde a chegada de Daniel Alves, entretanto, já estava claro que ele seria pago com a ajuda de parceiros. Os meses foram se passando e nada de parceiro algum chegar. Se fosse no mundo dos negócios, Daniel Alves seria aquele funcionário extremamente proativo: mal chegou e já impôs seu ritmo. Foi o líder do movimento que derrubou Cuca e trouxe Fernando Diniz. Outro assunto que também merece destaque futuramente.

Os parceiros nunca chegaram. O salário, exposto, chocou. Era nítido que ele não jogava tudo aquilo e que estava recebendo aquele montante por ser quem era. Não sou dos que acha que Daniel Alves é um imprestável e que nunca jogou nada. Ele, por sinal, para um atleta de 38 anos, foi bastante presente em campo. A grande questão sempre foi aquele maldito milhão e meio.

Daniel Alves não merece idolatria pelo que fez no São Paulo, muito longe disso. Mas… se a grande questão sempre foi financeira, é importante destacar que ele não ameaçou ninguém para receber o quanto recebia.

Você sabe desembrulhar um pacote?

A antiga gestão são-paulina, comandada por Carlos Augusto de Barros e Silva, foi a pior da história do São Paulo. Não trouxe títulos, apenas trouxe débitos. Aquela diretoria nunca trouxe nada de bom para o torcedor. Em todas as vezes que pensavam que ele poderia fazer algo, a verdade vinha à tona tempos depois e ficava evidente o quanto aquela ação era nociva. Daniel Alves foi o exemplo perfeito disso.

Não demorou muito para que o oba-oba passasse. Comandado por um técnico que dava alegrias em clássicos e só impunha um estilo de jogo insosso que nunca agradou o geral da torcida são-paulina, Daniel Alves se agarrou a alguns pilares para se manter líder. Ele, o grande presente de Leco para o São Paulo, tinha o aval de uma diretoria abominada por tricolores para fazer o que quisesse. Em campo, Fernando Diniz se recusava a tirá-lo dos jogos e a gritar com ele.

Ninguém no São Paulo soube desembrulhar o pacote Daniel Alves. Não tem nem como comparar o pacote Daniel Alves com a Caixa de Pandora porque todos tentam tampá-la; já Daniel Alves fez o que bem quis até Leco sair do poder. Ganhava um salário astronômico, trocou um treinador e colocou um que se tornou praticamente refém dele, não aceitava cobranças da torcida e ninguém tinha peito para cobrá-lo dentro do clube. O pacote Daniel Alves nunca foi desembrulhado completamente: a torcida do São Paulo soube pouco do que ele tinha de bom, mas viu a pior faceta desse presente em todo o tempo.

Epílogo

O fim da fila veio, e Daniel Alves foi campeão pelo clube do coração. Mas já em outro momento, com outra diretoria e outro treinador, que não o tinha como o pilar, mas “apenas” como alguém importante. Não era mais o suficiente para ele. Se ele alternava bons e maus momentos até os Jogos Olímpicos, a revelação da dívida após a medalha de ouro em Tokyo era o fim anunciado da caminhada junto com o clube.

As poucas atuações após o retorno do Japão foram muito abaixo da crítica. Não havia mais clima algum, e isso era nítido. Acabou de maneira melancólica, com uma coletiva opaca e cheia de chavões da parte do São Paulo e com um texto feito para o gosto de um público que, agora, o tem como antipático.

Ele, certamente, vai atuar em outro local. E não sou dos que acha que ele não é são-paulino, acredito que ele seja tricolor, sim. A questão é que uma das faces que ficou bastante exposta do pacote Daniel Alves é que ele pensa em primeiro, segundo e terceiro lugar nele. Todos sabiam disso, mas achavam que valia a pena ter esse pacote megalomaníaco. Valeu?

PS: O ranço a Daniel Alves é quase natural. Eu me pergunto, entretanto, porque poucos lembram da diretoria anterior, que tanto fez para tê-lo – e que tanto endividou o clube apenas para esse fim. Com a demissão de Fernando Diniz, o fim da fila e a saída de Daniel Alves, falta apenas um elo para que a gestão Leco, enfim, esteja finda de vez no SPFC: Tiago Volpi. Embora passe longe de ser nocivo como os outros tantos, é inegável o esforço que a diretoria fez.

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