
Planejamento no futebol não é um evento de janeiro; é um processo que nasce desde o último jogo da temporada anterior. Um clube com ambição sabe que, se não há convicção no trabalho a longo prazo, a mudança deve ser feita logo no começo das férias, e não com o calendário já em andamento.
Após um 2025 marcado por resultados vexatórios e instabilidade política, a diretoria do São Paulo tomou uma decisão que, na época, parecia indicar maturidade: a manutenção de Hernán Crespo. A garantia da permanência da comissão técnica para 2026 demonstrou uma confiança na continuidade do trabalho, sinalizando que as peças da janela de transferências seriam escolhidas para servir a um modelo de jogo já estabelecido. O mínimo esperado de uma gestão profissional seria a blindagem desse projeto após entregar ao técnico os reforços pedidos. No entanto, a lógica usada foi outra.
Diante disso, ao assumir o cargo, Roger Machado herdou um elenco moldado por conceitos táticos opostos aos seus. O perigo dessa troca de comando é justamente esse: o grupo foi montado para uma filosofia e agora precisa responder a outra, totalmente diferente. Na prática, é como se você tivesse as peças de um quebra-cabeça, mas tentasse montar uma imagem que não existe ali. O resultado dessa falta de planejamento é o mau futebol apresentado e a visível desorientação do time em campo nos últimos jogos.
Mas o erro de planejamento não para na troca de comando; ele se estende à definição das prioridades da temporada. O elenco do São Paulo é limitado — isso é um fato conhecido. O delírio começa quando se acredita ser possível encarar três competições em alto nível sem peças de reposição suficientes. Há anos se discute a necessidade de priorizar o Campeonato Brasileiro para garantir uma vaga direta na Libertadores, mas a escolha de “força total” em competições de mata-mata ignora a realidade física do grupo. É uma aposta de alto risco para quem tem poucas peças de confiança. Se a intenção era rodar o elenco, por que não dar espaço real aos garotos de Cotia, que seguem subaproveitados? Falta entender as limitações do time para traçar objetivos que sejam, de fato, alcançáveis.
Enquanto aqueles que ocupam as cadeiras do Morumbi não entenderem a responsabilidade de gerir uma instituição com o peso do São Paulo, o clube seguirá estagnado. Um planejamento sério exige uma diretriz que blinde o futebol das conveniências políticas e administrativas, focando apenas no que acontece dentro das quatro linhas. A realidade é dura: ou se encara as limitações do elenco com honestidade para traçar objetivos reais, ou continuaremos vendo o clube desperdiçar temporadas inteiras por falta de convicção. É hora de decidir se o clube vai finalmente profissionalizar seus processos ou se continuará sendo refém de decisões pautadas pelo ego e tomadas por quem, no fundo, coloca interesses pessoais acima da grandeza do clube.
